quarta-feira, 29 de abril de 2009

Excursão a Amarante

As tropas napoleônicas invadiram a cidade de Amarante duas vezes na tentativa de conquistar Portugal. Em 18 de abril, a cidade de Amarante celebrou os 200 anos da II Invasão Francesa. A princípio eu não entendi direito como é que uma cidade pode "celebrar" ter sido invadida, saqueada e quase toda incendiada, mas pesquisando melhor, descobri que eles comemoram porque as tropas portuguesas, resistiram bravamente e impediram que os homens de Napoleão derrubassem a ponte sobre o Rio Tâmega e avançassem por ali. Sendo assim, a bravura e o heroísmo dos portugueses amarantinos merece mesmo ser celebrada e lembrada e com este objetivo a Câmara Municipal de Amarante realizou neste dia a recriação histórica da luta que se travou naquelas ruas.

Já fazia algum tempo que eu e minhas amigas do trabalho queríamos ir a Amarante para nos esbaldarmos no restaurante chamado
Zé da Calçada
e sabendo do evento histórico, aproveitamos para unir o útil ao agradável e organizamos uma mini-excursão com nossos ilustres namorados. Estávamos no ponto de encontro marcado para a distribuição nos carros quando meu telemóvel tocou com a tão esperada ligação do SEF. Pulamos de alegria e seguimos neste clima para Amarante. Lá chegando encontramos a Sandra, amiga da Patrícia que se juntou a nós e nos saiu melhor que uma guia profissional, pois como boa amarantina que é, ela conhece aquilo ali como ninguém, sabe a história de cada esquina da cidade e tivemos um dia riquíssimo gastronomica e historicamente falando.

A recriação histórica durou a tarde toda, aconteceu nas mesmas ruas por onde a invasão verdadeira passou e nós, juntamente com a população, acompanhávamos pelas calçadas os tiros de canhão que nos faziam estremecer e ensurdecer. No início fiquei triste ao ver as tropas francesas avançando cidade adentro com suas armas empunhadas, pensei no verdadeiro terror que deve ter sido aquilo e tive vontade de chorar com pena de todos nós, humanos. Depois, entrei no clima de festa da população e vi que como bons portugueses que são, eles estavam encarando isso com humor (nós, brasileiros, também herdamos isso deles). Até os que representavam soldados franceses e portugueses estavam no clima de festa e alguns fingiam dançar música pimba quando se encontravam para o combate. Todos riam e eu ri também. Se fosse no Brasil, tudo acabaria em pizza, mas como estamos em Portugal, tudo acabou com doces típicos daquela cidade, comi um Quadrado de Chocolate delicioso na Confeitaria da Ponte (não tem site na internet, mas é muito conhecida por lá).
O dia nos rendeu boas risadas, comida e vinho do melhor e fotos maravilhosas, algumas das quais compartilho com vocês.

Amarante

O grupo.

A ponte.

As entradas

O combate.

A confissão.

O bigode.

A rua.

O Tâmega.

Conversa no caixa

Ontem enquanto a caixa do supermercado registrava os produtos que comprei, a senhora que aguardava na fila atrás de mim estabeleceu o seguinte diálogo com ela:

Sra.: - Então, como está?
Caixa: - A vida é ingrata...
Sra.: - Como foi que aconteceu?
Caixa: - Ele foi dormir normalmente e de manhã minha mãe estranhou que ele não estava roncando, chamou por ele e ele não se mexeu, quando chegou mais perto viu que ele não estava respirando... foi uma morte abençoada, meu pai se foi sem sentir nada...
Sra.: - E como você está?
Caixa: - Eu ainda não acordei, sabe? Tô aqui trabalhando meio anestesiada... só faz 8 dias e tô aqui trabalhando... fazer o quê? Tenho meu marido e meus filhos, não posso deixar de trabalhar.
Sra.: - E a sua mãe, como está?
Caixa: - Tá doentinha. Agora tô muito preocupada com ela. Tô aqui trabalhando, mas tô cheia de procupação com ela...

Como ela falava com a senhora e passava os produtos sem olhar pra mim, não viu que eu estava com os olhos cheios de lágrimas, ouvindo a conversa quase sem querer. Paguei e só tive coragem de dizer "obrigada, boa tarde", mas estava me remoendo de vontade de dizer "olha, eu sinto muito, sei o que você está passando, senti essa dor que você está sentindo no ano passado e sei como é..." Mas eu desisti de dizer qualquer coisa porque não iria conseguir dizer só isso, ia dizer que ainda dói e que vai doer por muito tempo, mas que ela ia aprender a viver com essa dor e talvez um dia, até conseguisse se acostumar com ela, de forma que ia achar que a dor teria desaparecido, mas aí eu teria que dizer também que eu acho que ela não desaparece, ela só se acomoda em algum lugar no nosso coração e se disfarça de saudade, e com essa sim, a gente vive para sempre, até expirar o prazo de validade do nosso "sempre" por aqui.

Fui embora sem dizer nada, com lágrimas nos olhos e um aperto no peito, vontade de voltar pra trás e falar tudo o que passou pela minha cabeça, mas escolhi seguir em frente com a minha dor e deixar a moça do caixa quietinha com a dela.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Cidades Antitouradas e Circos Sem Animais


Sei que estou devendo postagens sobre o passeio a Amarante e sobre a visita da tia Yone ao Porto, mas hoje ao ler o jornal, vi uma notícia que me deixou muito feliz e vou compartilhá-la logo com vocês. Há uma associação de proteção aos animais aqui de Portugal que se chama Animal e esta tem obtido grandes resultados em sua tentativa de extinguir do território português "a tortura de animais nas touradas e a brutalização e subjugação de animais em circos" (Paulo Moutinho, presidente da Animal). No início deste ano Viana do Castelo foi a primeira cidade a aderir ao movimento, em seguida aderiram Braga e Cascais e agora quem se declara também uma cidade "antitourada" é a bela Sintra. Vale ressaltar que em Cascais e em Sintra também está proibido espetáculos circenses com animais. A grande novidade é que estas adesões tem se dado não apenas no âmbito social, mas também no âmbito político, pois estas leis estão sendo aprovadas pelas Câmaras Municipais (prefeituras) destas cidades, passando a ser considerado um crime a execução destas atividades.
Eu aplaudo de pé a iniciativa da Animal e mais ainda a adesão destes municípios portugueses, afinal qual o crime cometido por estes animais para sofrerem tantos castigos?

Aproveite que você está aqui e ASSINE A PETIÇÃO da Animal em favor do Manifesto Animal. Minha assinatura foi a de número 8696. É simples e rápido.

sábado, 25 de abril de 2009

Aqui Está Certo

Caso você venha a Portugal ou passe a conviver com portugueses, não estranhe se ouvir coisas do tipo "os bancos negoceiam suas dívidas" ou "a minha casa é mais pequena que a dela". Por mais estranho que pareça, aqui em Portugal frases como essas estão certas e são usadas corriqueiramente na linguagem escrita e falada, nos meios de comunicação, nas escolas e nas ruas.

A primeira coisa que devemos fazer ao decidir mudar de país, é abrir a mente e adestrar os ouvidos ao diferente. É claro que se eu tivesse mudado para um país de outro idioma, eu não estaria aqui fazendo comparações, afinal é lógico que se fala de forma diferente em francês, inglês ou russo. O espaço para comparação existe porque neste caso, estou comparando português com português, assim como devemos comparar banana com banana e não com maçã.

Com o português europeu tenho me defrontado com diferenças que não imaginava encontrar. Sabia que haveria de me acostumar com um vocabulário diferente, mas não com regras gramaticais diferentes. Pode até ser que as regras em si estejam iguais nos livros brasileiros e portugueses, mas a forma como são interpretadas e usadas em ambos os países é o que surpreende.

É importante ressaltar que um português que vá morar no Brasil muito provavelmente não estranhará tanto o português brasileiro como nós estranhamos o europeu, pois aqui ouve-se o português tupiniquim em todo lado: nas novelas da TV, nas músicas do rádio, no atendimento nos cafés e restaurantes e se você for fazer as unhas então… raramente ouvirá sotaque português.

Eu só espero ganhar com esta experiência de morar em Portugal. Sem deixar o uso correto e a maciez do português brasileiro de lado, pretendo apreender a polidez e a assertividade do português europeu, e no final das contas enriquecer o meu vocabulário e a minha capacidade de expressão.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Boas Novas

O fim de semana passado foi só de boas notícias. Na sexta recebi e-mail da tia Yone confirmando que conseguiu vôo de Paris pra chegar ao Porto ao meio-dia da próxima sexta, ou seja, dia 24 de maio almoçaremos juntas!!! Só desgrudo dela na segunda a noite porque na terça ela volta pra Paris e segue viagem pro Rio. Sim, ela é chique, e além de ser chique é minha madrinha e segunda mãe, portanto, é a segunda sogra do Filipe. Êta homem de sorte esse!

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No sábado de manhã meu telefone tocou e era a tão esperada ligação do SEF para agendar a entrega dos meus documentos e a finalização do meu processo de legalização aqui em Portugal. Recebi a notícia ao lado do Filipe e das amigas da Jaba, pois nos preparávamos para uma mini-excursão à Amarante (que contarei em outra postagem). Ficamos todos muito felizes. A audiência será em 04 de maio e já estou correndo atrás da papelada que tenho que apresentar. Creio que vai correr tudo bem e só não vai ter viagem internacional pra comemorar o meu direito de ir e vir readquirido porque vou ficar pobre depois de pagar o visto, mas nada que uma visitinha a Viana do Castelo não resolva. ;-)

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Na madrugada de sábado pra domingo, sonhei que o Davi (filho da minha grande amiga Bella previsto pra nascer em 02 de maio) estava no colo do Dudu, o pai. Eu dizia pra alguém que o bebê era a cara do pai, moreno de olhos claros. Ao acordar, olhei pro meu telemóvel e vi que havia uma mensagem da Bella, enviada às 5:00 da manhã. A mensagem dizia o seguinte: "La, entrei em trabalho de parto! Já estou na maternidade! O Davi deve nascer daqui a 1 ou no máximo 2h! Amamos..."
Meu coração queria saltar pela boca. Fiquei duplamente feliz. Pela notícia e pela coincidência do sonho. Coincidência? Que coincidência? Nada neste mundo é por acaso e eu acho que viajei em espírito pra conhecer o Davi, desta forma a viagem é de graça, não precisa de passaporte nem de permissão do SEF e se faz Porto-Goiânia-Porto em fração de segundos. Só falta agora ver a carinha do Davi no site da maternidade pra ver se bate com a que eu vi enquanto dormia.

Definitivamente, a vida se faz parcialmente pela Internet para quem emigra.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Post-rock

Na terça-feira eu e Filipe fomos assistir a um concerto diferente. Era rock, mas estávamos sentados em um teatro com cadeiras confortáveis como as dos cinemas modernos; Tinha baixo, bateria, guitarra, sintetizadores, mas não tinha voz e o guitarrista tocava sentado; A música começava suave e de forma hipnotizante ia num crescendo que quase sempre terminava de forma catártica. Eu estava na plateia um pouco atônita, vidrada no que via e ouvia e grata por estar ali.

Raramente saio durante a semana, mas após ouvir os relatos do Filipe sobre os últimos concertos deste tipo a que ele foi, fiquei curiosa e resolvi voltar aos velhos tempos de alimentar a alma mesmo que seja numa terça-feira a noite. A banda se chama "This Will Destroy You" e é do Texas, EUA. Apesar do título forte, se esta música destrói alguma coisa é só a ideia de show de rock pré-concebida e a mania que temos de pensar incessantemente em nossos problemas, pois pelo menos eu, que não dou descanso para a minha cabeça, consegui relaxar e me concentrar apenas na música, deixar meu corpo balançar conforme ele quisesse e observar também o movimento dos músicos, que não era nada exibicionista ou afetado, era simplesmente o fluir da música.

O mais legal de tudo é que há agora uma onda de concertos de post-rock ou art-rock - como este estilo tem sido chamado - se espalhando pelo Porto. Os preços dos bilhetes são bem acessíveis e você pode fazer reserva de bilhetes para garantir o seu já que os locais dos shows são geralmente salas pequenas e acolhedoras. Como este estilo musical é do gosto da turma de alternativos que curte mesmo a música, vinho escondido na garrafinha de água mineral e casacos verde-oliva, os músicos também são da paz e se sentem a vontade pra ficar pelo bar antes e depois das apresentações, recebem o cumprimento das pessoas numa boa e trocam ideias. E é assim, sem estrelismo, sem egos inflados ou esquisitices que se faz e se ouve boa música no melhor conceito "compartilhando o que temos de melhor".

É importante ressaltar que nem todos os concertos têm o mesmo formato, uns são em locais convencionais, onde a platéia fica em pé e bate cabeça no ápice das canções, mas o formato é o de menos, o que importa mesmo é a música progressiva, psicodélica e experimentalista entrando pelos nossos ouvidos e pelos nossos poros.

Pra quem estiver interessado em conhecer este estilo de rock super atual e em progressão (antes que fique comercial demais e os preços dos bilhetes tripliquem), vai lá no MySpace das bandas que recomendo abaixo ou no blog dos jovens produtores que têm nos feito bem aos ouvidos trazendo estas bandas para cá: Amplificasom
Obs: O layout do blog deles é igual ao do Duas Terrinhas, mas é pura coincidência de bom gosto. :-)
Abaixo, bandas que recomendo para quem quiser entender do que estou falando:

Earth - Essa é para meditar.
Pelican - Música progressiva do início ao fim.
Russian Circles - Uma viagem musical mesmo!
God is an Astronaut - Próximo concerto que pretendemos assistir.
If These Trees Could Talk - Essa estamos torcendo pra que venha ao Porto.
65 Days of Static - Adoro trabalhar ouvindo esta banda. Dá um gás!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Hino Centenário

Ontem foi o dia do Hino Nacional Brasileiro e este velho colega do pátio da escola e das premiações esportivas completa 100 anos este ano. Tendo em vista que amigos portugueses têm curiosidade sobre o nosso Hino (muitos já me disseram que o acham bonito)e que eu morro de saudade de cantá-lo em alto e bom tom no meio da multidão, resolvi postar aqui a letra completa. Comparando a Hinos que enaltecem seus monarcas ou guerras vencidas, acho o Hino Brasileiro lindo, uma declaração de amor à Nação e a afirmação do orgulho de ser brasieliro que aprendemos a ter desde que nascemos, com crise ou sem crise, estando dentro ou fora de solo brasileiro. Exceto aqueles que só fizeram nascer e foram criados sem vínculo afetivo nenhum com o país, acredito que sejam espécie raríssima os brasileiros que ouvem os acordes iniciais do Hino e não se arrepiam, e acredito ainda que essa emoção reverbera no corpo de todo cidadão que ama a sua pátria, assim como eu amo a minha.

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.

Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu risonho e límpido
À imagem do Cruzeiro resplandece.
Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.

Terra adorada
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil
Pátria amada,
Brasil !
Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Do que a terra mais garrida
Teus risonhos lindos campos têm mais flores;
"Nossos bosques têm mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores".
Ó Pátria amada,
Idolatrada
Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado
E diga o verde-louro desta flâmula
Paz no futuro e glória no passado.
Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil
Pátria amada,
Brasil !

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Pra (tentar) entender a Páscoa



Este texto circula pela net já há algum tempo e eu morro de rir sempre que leio. Caso você ainda não tenha lido, divirta-se, caso já tenha lido, vale a pena rir de novo. Beijos achocolatados e uma FELIZ PÁSCOA PARA TODOS!

Papai, o que é Páscoa?
Ora, Páscoa é… bem… é uma festa religiosa!
Igual ao Natal?
É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.
Ressurreição?
É,ressurreição. Marta, vem cá!
Sim?
Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.
Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?
Mais ou menos… Mamãe, Jesus era um coelho?
O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Deus me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!
Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?
É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
O Espírito Santo também é Deus?
É sim.
E Minas Gerais ?
Sacrilégio!!!
É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?
Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!
Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?
Eu sei lá! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.
Coelho bota ovo?
Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!
Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
Era… era melhor sim… ou então urubu.
Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né? Que dia ele morreu?
Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.
Que dia e que mês?
(???) Sabe que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de Aleluia.
Um dia depois?
Não, três dias depois.
Então morreu na Quarta-feira.
Não, morreu na Sexta-feira Santa. Ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas? - Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois!
Como?
Pergunte à sua professora de catecismo!
Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?
É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
O Judas traiu Jesus no Sábado?
Claro que não! Se Jesus morreu na Sexta!!!
Então por que eles não malham o Judas no dia certo?
Ui…
Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
Cristo. Jesus Cristo.
Só?
Que eu saiba sim, por quê?
Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?
Ai coitada!
Coitada de quem?
Da sua professora de catecismo!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Mesa pra 10 ou 15*

Na postagem abaixo eu citei um alegre grupo de alemães da terceira idade que se embebedava de vinho do Porto numa tasca em Gaia. O que vocês não sabem é que no rascunho da postagem eu havia escrito um parágrafo todo sobre eles e ao ouvir a opinião do Filipe antes de publicar o texto, concordei com ele e resumi a parte dos alemães porque já estava fugindo muito do tema daquela postagem. Depois fiquei pensando... É tão comum vermos grupos de amigos bebendo e se divertindo em botecos, principalmente se eles são turistas num país diferente. Por que aquele grupo atraiu tanto a minha atenção? Por que eu quase esqueci o tema da postagem pra falar deles? E há pouco me surgiu a resposta: porque eu olhava para aquele grupo e lembrava de mim e dos meus amigos. Lembrava das mesas compridas onde já estive, todos brindando, todos falando besteira, todos rindo e de vez em quando, alguém vomitando no final. E tive saudade, muita saudade de estar entre velhos e bons amigos, e tive saudade do futuro que eu imaginava ter quando ainda morava no meu país, cercada por eles. Eu imaginava que ia envelhecer com eles, que íamos continuar nossa vidinha de ir à praia, ao boteco, ao cinema e aos restaurantes, sempre com reserva pra 10 ou 15. E enquanto observava aquele grupo de alegres-idosos-bêbados, eu me perguntava: Com quais e com quantos amigos estarei dividindo a mesa na minha terceira idade?

Eu cresci com a minha casa cheia de gente nos finais de semana. Eram os amigos dos meus pais que se reuniam pra uma noitada de violão ou pra um grande almoço de domingo. Desde que me entendo por gente, me acostumei com o barulho das garrafas sendo abertas, dos brindes dos copos, com a confusão na cozinha pra lavar a louça e com reservas de mesa pra 10 ou 15.

Reconheço e valorizo todas as vantagens de morar fora, de viajar, de fazer novos amigos e principalmente de estar ao lado do homem que eu amo, mas reconheço também as desvantagens e acho que uma das maiores delas é a grande ameaça de perder o elo com quem ficou do lado de lá. E lhes digo uma coisa, eu me esforço muito para que isso não aconteça. Fiz este blogue por isso, mando e-mails, cartas, telefono sempre que dá, tento não esquecer dos aniversários, tento participar dos momentos importantes nem que seja pelo Skype, mas sinto que se eu não fizer esta ginástica, as pessoas se acomodam e deixam de mandar notícias, deixam os laços se afrouxarem, deixam de compartilhar comigo o dia-a-dia delas e a gente vai se perdendo... Mas eu não desisto facilmente e continuo a ginástica do "não perder ninguém de vista" porque eu quero envelhecer rodeada dos meus velhos e bons amigos e quero continuar fazendo reservas de mesa pra 10 ou 15, esteja onde estiver nesse nosso mundinho.

*Quero deixar bem claro que estou bem satisfeita com os amigos que tenho feito aqui em Portugal, esta postagem é um leve puxão de orelha nos amigos que ficaram no Brasil. ;-)